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quinta-feira, 27 de setembro de 2012


Linho e Lavanda





Sabes, hoje quis escrever-te uma carta de amor, em que as 

palavras se vestissem da cor de todas as palavras de amor, 

que soassem como todas as palavras de amor, que fossem 

apenas banais como todas as palavras de amor podem ser.

Escolhi cuidadosamente o papel, aquele de que tanto 

gostas, ligeiramente texturado e de aspecto envelhecido.

Procurei a caneta, a roxa, gosto de escrever a 

roxo,dramático e sentimental, dizes.

Imagino que sorris, sorris sempre da importância que dou 

aos pormenores.

Sentei-me junto à janela,  o jardim tão verde e húmido, o 

ar tão lavado e fresco, que as palavras haveriam de brotar, 

banais, como uma flor na brisa da manhã.

Acendi um cigarro, sim, sei que detestas, abri a caneta,

 pousei a cabeça na mão e escrevi o teu nome.

Olhei demoradamente o papel , como um ramo de lavanda 

sobre um lençol de linho, tão banal e belo e fresco como as

 palavras de amor que quis escrever-te, hoje.

Um pássaro assobiou lá fora, o cigarro consumia-se entre os 

dedos, fechei a caneta e abri a janela.

Precisava respirar.

Uma única frase queria seguir o teu nome:

" O gesto largo e obsceno com que abres a minha vida à tua, 

sufoca-me"

Sabes, hoje quis escrever-te uma carta de amor e descobri 

que já não sei palavras de amor, banais.


06/03/2011



terça-feira, 6 de dezembro de 2011













sufoco entre paredes de mãos ásperas

bordo palavras no teu silêncio

e moro ainda assim na água em que te diluis



Foto Google

terça-feira, 22 de novembro de 2011









Olha uma última vez o rosto no espelho de prata polida e sai. O ondulado dos véus reflecte-se intermitente nos escudos dos guardas ao longo do corredor que as tochas mal iluminam. Descalça sobre o mármore,  os olhos marcados a khol, a boca vermelha e complacente, o corpo brilhante de óleos aromaticos, caminha consciente das línguas a humedecer os lábios e dos olhares escusos e proibidos que a seguem. Hesita, demora o passo, quer-se admirada, que pela última vez a vejam inocente e virgem. No refazer do caminho as lágrimas e o sangue serão o rasto que deixar. Por um só olhar que se recusa terá vendido a alma, por um suspiro que não ouve será o seu gemido que vai acompanhar, na noite infindável, a bandeja da vingança.
Detém-se ante a magnificente porta de bronze. O rumor da festa é difuso e o som dos tambores, surdo e baixo provoca-lhe um arrepio de temor. Recorda os olhos ardentes que a negam, as mãos que lhe fogem, os cabelos que quer entre os dedos. Apruma o corpo perfeito, solta num gesto rápido os cabelos de fogo e bate as palmas. O tilintar das joias marca já o ritmo a cadênciar as ancas e enquanto a porta se abre grita-se o seu nome:
Salomé


Foto Google

domingo, 15 de maio de 2011

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Abandono






Recomponho a melodia das roupas que despi
ensaio em breves e semi-breves
o ritmo que o chão ecoa sob as sedas
as cambraias o algodão doce
suave e triste do abandono
a nudez é uma sede de esperança
que se perdeu
e no regresso ao futuro
o rendilhado que o passado amassa
mói-me o presente como o trigo
que há-de ser pão ázimo
da fome que não escondo
.
a musica dos sentidos
é um céu turvo de pássaros que chegam
a anunciar uma primavera que não verei.


(foto recebida de Alice Campos. Um trabalho de Ricardo Paula)

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

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O sol tem hoje a cor do frio, azul, lilás e roxo
a cor da paixão de um Cristo redentor, numa ressurreição anunciada
quando todos os sóis serão dourados e todas as cores puras e perdeitas
e dos profetas, as palavras em flor, já se esgotaram...
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...e uma voz no silêncio da alma...
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"a redenção mora aqui, onde o sangue vibra  
se derrama em rios sob a pele e a dor reclama a sua parte de estar viva
onde os riscos da consciencia desperta escrevem a certeza maior
de sermos cumplices do brilho dos dias  e das flores em botão".
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sábado, 3 de outubro de 2009

GINECEU

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Meu riacho de ternura
Onda de riso.......................
.............................................Leito de raiva
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Meu labirinto de jubilo
Flor de sal...........................
...............................................Colo de sangue
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Berço de fruto adiado.
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Foto Lu Branco

terça-feira, 30 de junho de 2009

ILUSÃO


Há o tempo de ser apenas sombra verde, do botão da flor que há-de ser. E o tempo de ser o rasto rubro, na corrente da chuva que caiu.
Entre o verde e o vermelho, entre a primavera e o Outono, o longo verão é todo luz e cor, realidade e reflexo, musica e riso.
E quando o sol, na terra adormecida, espalha o dourado da última estação, é que o canto dos pássaros no ninho, o som das cigarras no restolho e o pingar da chuva na calçada, tem o sabor de um vinho já provado.
Então a vida, presente e apetecida, enche de novo a taça das quimeras, para que os sonhos não se percam e as asas não deixem de voar.
Foto Google

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A IMAGEM DAS PALAVRAS

gueixa 3 Pictures, Images and Photos


"Na orla carnuda dos lábios, deliciosamente fechados num delicado botão em flor, via-se dançar um raio de luz; e quando se entreabriam para deixar sair o canto era apenas um instante, e logo voltavam a fechar-se em botão. O seu sedutor movimento, tenso apenas para se libertar de novo com mais abandono e encanto, era a própria expressão do seu corpo, por momentos rígido para melhor reencontrar a lasciva feminilidade da sua bela juventude."

Excerto do livro "Terra de Neve" de Yasunari Kawabata

Imagem Photobucket