quinta-feira, 27 de setembro de 2012


Linho e Lavanda





Sabes, hoje quis escrever-te uma carta de amor, em que as 

palavras se vestissem da cor de todas as palavras de amor, 

que soassem como todas as palavras de amor, que fossem 

apenas banais como todas as palavras de amor podem ser.

Escolhi cuidadosamente o papel, aquele de que tanto 

gostas, ligeiramente texturado e de aspecto envelhecido.

Procurei a caneta, a roxa, gosto de escrever a 

roxo,dramático e sentimental, dizes.

Imagino que sorris, sorris sempre da importância que dou 

aos pormenores.

Sentei-me junto à janela,  o jardim tão verde e húmido, o 

ar tão lavado e fresco, que as palavras haveriam de brotar, 

banais, como uma flor na brisa da manhã.

Acendi um cigarro, sim, sei que detestas, abri a caneta,

 pousei a cabeça na mão e escrevi o teu nome.

Olhei demoradamente o papel , como um ramo de lavanda 

sobre um lençol de linho, tão banal e belo e fresco como as

 palavras de amor que quis escrever-te, hoje.

Um pássaro assobiou lá fora, o cigarro consumia-se entre os 

dedos, fechei a caneta e abri a janela.

Precisava respirar.

Uma única frase queria seguir o teu nome:

" O gesto largo e obsceno com que abres a minha vida à tua, 

sufoca-me"

Sabes, hoje quis escrever-te uma carta de amor e descobri 

que já não sei palavras de amor, banais.


06/03/2011



3 comentários:

Isa Lisboa disse...

Intrigantes pensamentos, esses...!

Obrigada pela visita ao meu blog, seja sempre bem vinda!

Ana Oliveira disse...



:))

Obrigada Isa, o prazer foi meu!

Voltarei

© Piedade Araújo Sol disse...

por vezes há dias assim
mas é preciso re-nascer
sempre
sempre

um beijo amigo