sábado, 22 de setembro de 2012







Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,

sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.
Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

(Eugénio de Andrade)





Foto Net

6 comentários:

Maré Viva disse...

Que bom este reencontro, há tanto tem que não falávamos através dos nossos blogs!
Vejo que ambas apreciamos Eugénio de Andrade, eu não me coíbo de dizer que tudo o que ele escreve me deixa em estado liquido, e aposto que sabes o que quero dizer.

Sublinho:
"Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas."

Este verão deixou-me um "rumor de lágrimas nas pálpebras acesas", portanto que algo ou alguém me devolva os outros verões banais.

Nunca aceitemos as cores que nos querem impor, salvaguardemos as nossas.

Beijos.

Ana Oliveira disse...


Creio que entendo Maré...

que o vento de outono cale o rumor... que o inverno acenda o fogo lento da espera... que o novo verão traga a maior de todas as banalidades: um coração em sobressalto feliz.

as cores, essas que nos marejam os olhos, sejam sempre as que misturamos com as mãos prontas.

Feliz re.encontro, sim.

Beijo

Lídia Borges disse...


É uma poesia luminosa, a de Eugénio de Andrade, onde música, imagem e palavra se unificam num todo sem fronteiras que nos envolve.

"Deixa-me só, vegetal e só"

O corpo, Natureza apenas!

Lídia

© Piedade Araújo Sol disse...

Eugénio! sempre!

beij

Ana Oliveira disse...


Obrigada pela visita Lídia.

Um beijo

Ana Oliveira disse...


Beijo Piedade

Obrigada